ORATÓRIO

Oratório

ORATÓRIO

O oratório é uma composição musical de grande porte que se baseia em um tema sagrado ou semissagrado, sendo estruturado para vozes solo, coro e orquestra. Sua principal característica é a narrativa musical, onde o texto geralmente se fundamenta em escrituras religiosas ou relatos históricos de relevância espiritual. A transição entre diferentes momentos da obra ocorre por meio de recitativos, interpretados por diferentes vozes, os quais introduzem árias e coros expressivos.

Embora apresente uma estrutura dramática, o oratório pode ou não incluir elementos de ação cênica. Diferentemente da ópera, não foi concebido para encenações teatrais plenas, sendo comumente executado em igrejas ou salas de concerto. As três principais escolas do oratório são:

  • Italiana: caracterizada como uma espécie de ópera religiosa, com forte influência do estilo operístico.
  • Alemã: baseada na tradição musical dos relatos da Paixão de Cristo, enfatizando a narrativa bíblica.
  • Inglesa: consolidada por George Frideric Handel, que sintetizou influências italianas, francesas e germânicas, criando uma forma distinta e amplamente reconhecida.

O termo oratório origina-se das práticas devocionais da Igreja Romana, onde, no século XVI, São Filipe Néri organizava encontros musicais moralizantes, intercalados por sermões. Foi nesse contexto que surgiu a estrutura em dois atos, um formato comum aos primeiros oratórios italianos.

A Idade de Ouro do Oratório (1600 – c. 1750)

O oratório mais antigo que sobreviveu é “Rappresentazione di anima et di corpo” (A Representação da Alma e do Corpo) de Emilio del Cavaliere, apresentado em 1600. Essa obra já incorporava ação dramática, incluindo balé, o que reforçava seu caráter teatral. Contudo, foi Giacomo Carissimi, por volta de 1650, quem consolidou o oratório como um gênero mais sóbrio e introspectivo. Suas composições, escritas em latim e baseadas no Antigo Testamento, priorizavam a eficácia do coro, evitando exageros e adornos excessivos.

No desenvolvimento do oratório italiano, prevaleceu o chamado oratório volgare, em língua italiana, interpretado por cantores virtuosos e amplamente popular até o fim do século XVIII. Durante esse período, a ação cênica foi gradualmente abandonada, transformando o oratório em uma forma puramente musical. Na França, Marc-Antoine Charpentier, discípulo de Carissimi, desempenhou um papel fundamental na adaptação do oratório italiano ao gosto francês.

Na Alemanha, o desenvolvimento do oratório teve início com Heinrich Schütz, cuja música combinava elementos germânicos e italianos. Suas obras eram estritamente ligadas aos Evangelhos, carregadas de expressividade emocional, antecipando a abordagem posterior de Johann Sebastian Bach. Seu “Easter Oratorio” (1623) seguia a tradição de atribuir múltiplas vozes a um único personagem, criando um efeito dramático singular.

A obra de J.S. Bach marcou um renascimento do oratório alemão, especialmente com suas duas grandes obras: “A Paixão Segundo São João” (1724) e “A Paixão Segundo São Mateus” (1729). Nessas composições, Bach combinou coros vigorosos, árias dramáticas e a participação ativa da congregação por meio de hinos. Suas criações elevaram a complexidade estrutural do oratório, mantendo um equilíbrio perfeito entre narrativa e contemplação.

Já os oratórios de George Frideric Handel, diferentemente dos alemães, foram concebidos como espetáculos teatrais e não possuíam vínculo direto com a igreja. Inspirando-se na ópera, no masque inglês e até na tragédia grega, suas obras eram interpretadas em teatros, por cantores de ópera, sem encenação cênica devido à proibição religiosa. Seu legado inclui “Saul” e “Israel no Egito” (1739), “Messias” (1742) e “Samson” (1743), obras nas quais demonstrou excepcional domínio na caracterização musical e no uso do coro para expressar emoções intensas.

ORATÓRIO

O Oratório Após 1750

Após o auge de Bach e Handel, a produção de oratórios no continente europeu diminuiu consideravelmente, exceto pelas contribuições de Joseph Haydn. Sua obra-prima “Die Schöpfung” (1798; A Criação) foi influenciada pelos oratórios de Handel e pelas óperas de Mozart, resultando em uma fusão única de elementos épicos e dramáticos. Seu segundo oratório, “Die Jahreszeiten” (1801; As Estações), apresentava uma abordagem mais secular.

O único oratório de Ludwig van Beethoven, “Christus am Ölberg” (1803; Cristo no Monte das Oliveiras), não obteve sucesso significativo. Durante o século XIX, o oratório continuou sendo produzido principalmente em sociedades corais e festivais, especialmente na Alemanha e na Inglaterra. “Elijah” (1846) de Felix Mendelssohn é um dos poucos exemplos desse período que ainda são frequentemente executados. Inspirado por Bach e Handel, Mendelssohn buscou fundir os estilos de ambos os mestres, destacando-se pelo vigor expressivo de seus coros.

Na Alemanha, poucas obras se destacaram após Mendelssohn, sendo uma exceção “Ein deutsches Requiem” (1868) de Johannes Brahms, uma adaptação de textos bíblicos de Martinho Lutero que pode ser considerada um oratório. No final do século XIX, Franz Liszt compôs dois oratórios de grande porte: “Christus” (1855-56) e “Die Legende von der heiligen Elisabeth” (1873), combinando influências devocionais e teatrais.

Na França, uma das poucas contribuições relevantes foi “L’Enfance du Christ” (1854) de Hector Berlioz, composta como uma série de quadros teatrais. Já no século XX, o oratório inglês ganhou nova vitalidade com “Dream of Gerontius” (1900) de Sir Edward Elgar, baseado em um poema do Cardeal Newman, explorando um formato dramático coerente.

A fusão entre ópera e oratório atingiu um novo patamar com “Oedipus Rex” (1927) de Igor Stravinsky, escrita em latim e frequentemente interpretada em casas de ópera. No meio do século XX, o suíço Frank Martin destacou-se como um dos principais compositores do gênero.

Entre as contribuições mais notáveis do século XX está “A Paixão de São Lucas” do polonês Krzysztof Penderecki, uma obra inovadora que mescla elementos modernistas e sacros, demonstrando que o oratório continua a evoluir e a se adaptar às novas tendências da música erudita.

Baseado no artigo da Britanica.com

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